sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

MINHA BUSCA


Nas contínuas noites que se aproximaram, não entraram em meu jardim para levar flores ou rosas. Deixaram-nas lá, lindas e floridas, as gloxínias, amarílis, gérberas, íris, hortênsias e folhagens. Ao contrário, delimitaram-me em extensas fronteiras planetárias, continentais, nacionais, estaduais e municipais.

Impuseram-me, ainda, quintais, com cercas, alambrados, enormes muros reforçados por um quase impenetrável sistema de segurança com cercas elétricas, circuitos fechados de televisão, além de infindáveis raças de cães ferozes e obcecados pela violência. Tudo preparado para a separação.

Além de estradas que levam, mas também separam, foram abertas ruas, avenidas, alamedas, vielas, travessas e outras vias para separar bairros, conjuntos, quadras, casas e pessoas, onde fui ficando aprisionado.

Separaram-nos por raças, classes sociais, crenças e credos, siglas partidárias, categorias profissionais, sexualidade e desejos sexuais. Até o paladar foi usado para estabelecer a separação e, na maioria das vezes, a segregação.

Uns utilizam-se de velozes naves aéreas, enquanto outros usam veículos terrestres coletivo ou particular; havendo ainda aqueles que fazem uso da tradicional, longa e penosa caminhada, por opção ou necessidade. Sim, o meio de transporte também foi usado para dividir.

Decidiram que precisaríamos de líderes, governantes e mandantes. As formas de escolhas são as mais diversas, havendo casos em que sequer escolha há. O fato é que ai está ele, o Estado, todo poderoso e gestor sobre nossas vidas. Mesmo a propalada democracia, quando resolve dar as caras ao balcão, sabemos, como o poeta Eduardo Alves da Costa em seu “caminho com Maiakóvski”, que ela tem uma espada a nos espetar as costelas.

Entre as várias ditaduras, antes privilégio das armadas, temos hoje as da vestimenta, do físico, do pensamento, do comportamento, ideológica, alimentar e, se sairmos do primeiro plano de visão, percebemos até mesmo a religiosa. A não adesão ou dissidência pode resultar em castigos severos, oxalá não levemos dezenas de chibatadas atracados a um tronco por não bradarmos aleluias e améns.

Ao corpo foram acrescidas sobrepeles, com uma infinidade de desenhos, produtos, marcas e escalonáveis valores, servindo como definidor de status e, ainda, segregacionador. A exposição da pele natural passou a ser objeto de castigo. Seu toque, então, passou a ser permitida apenas sob a égide da relação constituída, de forma moderada e privada. As manifestações públicas de carinho passaram a ser, quando não castigadas, ridicularizadas.

É verdade, não entraram sorrateiramente em meu jardim para levar flores ou rosas. Mas me trouxeram essas mazelas. Trouxeram-me muito e levaram pouco. Mas o pouco que levaram vou lutar para ter de volta. Não consigo mais viver com sua ausência; sem ele não respiro, não vivo, não sinto. Perco o olfato, a audição, a visão, o tato, o paladar... vegeto apenas.

Chega. Este é meu foco. Buscarei incansavelmente até resgatar o que me foi tirado nesse tempo: EU!

sábado, 19 de setembro de 2009

CONVIVENDO COM A MORTE

“A morte voluntária é a mais bela. Nossa vida depende da vontade de outrem; nossa morte, da nossa. Em nenhuma coisa, mais do que nesta, temos liberdade de agir”. -Michel de Montaigne

Todos os dias, bem cedinho, com seu hábito de acordar ainda na madrugada, ele se preparava para a morte. Mentalizava, enquanto banhava-se e escovava os dentes, quais seriam os trajes e adereços que lhe cobririam o corpo em mais um dia em que este – o corpo, levaria sua companheira alma para o patíbulo. A paramentação era torturante, é certo, mas ele necessitava dessa pequena dose de bálsamo para aliviar-se. Vestia-se, lentamente, enquanto atento não desviava a atenção do aparelho de televisão sobre a cômoda em seu quarto, tentando suprir sua insaciável fome por informação, que homeopaticamente ia lhe tirando a esperança de sobrevivência, minando suas forças e acelerando aquela caminhada final.

Acreditava que a força que lhe restava, estava intrinsecamente ligada à preocupação familiar. Preocupava-se com todos, como se a ele fosse atribuída à obrigação de cuidar, zelar e mantê-los seguros. De formação cristã, ainda relutava em seu desejo, quando lhe vinha à mente os ensinamentos de Tomás de Aquino, para que além de cuidar de sua comunidade, deveria também amar a si mesmo e, fundamentalmente, que a vida é um bem dado por Deus, cabendo apenas a Ele determinar sua duração. Mas, diferentemente, esse sentimento apenas aumentava, em certas ocasiões, sua inação frente às diversidades. Recaia novamente num vazio angustiante, tomado pelos ensinamentos estóicos de Cícero e Sêneca, os quais “o essencial não é simplesmente viver, mas viver bem”, devendo-se viver o quanto o é para ser vivido, não o quanto pode ser vivido. Arrastava-se cotidianamente em busca de uma felicidade e realização, apenas e tão-somente deixando-se levar pela racionalidade da natureza e indiferente ao que a vida externa lhe apresentava. Não sabia mais utilizar-se com sabedoria das coisas lhe apresentadas pelo mundo externo.

Aquele trapo humano não resistia mais a dor. Nada mais do que outrora lhe motivava, podia-lhe mover qualquer manifestação de satisfação, felicidade, alegria... Inerte, permanecia assim até mesmo diante da florada dos ipês, que no final do verão regional pululava por toda a região, na cidade e nos campos. Contrário a exuberância daquele amarelo reluzente, que deveria ativar a capacidade intelectual, motivando novos pensamentos, propiciando, organizando e assimilando ideias inovadoras, inexplicavelmente ele extraia o medo, o temor. Apenas as sensações perturbadoras.

Dirigia-se ao panteão dos “homens deuses” para mais um dia de serventia, donde extraia o necessário para manter a matéria. Mas também era de lá que extraia a maior dosagem do veneno que lhe colocava nessa letargia, nessa angústia e nesse sofrimento. Foi lá que lhe roubaram os melhores anos de sua vida, lhe afastaram da família, dos amigos, de seus cultos e de seu lazer. Foi também lá que lhe desvaneceram a alma. Aquele templo já lhe proporcionou encanto e felicidade, provocando-lhe fervor naquela tarefa. Agora, contudo, lhe restou tão-somente as trinta moedas em pagamento pela traição que fizera consigo.

Um questionamento perturbador lhe vinha à mente constantemente. Aquele feito por Friedrich Nietzsche , que “se um dia ou uma noite, um demônio se esgueirasse até você e, penetrando na sua mais solitária solidão, lhe dissesse: ‘Esta vida, da maneira como você vive agora e já viveu antes, você terá que vivê-la mais uma vez e outras inumeráveis vezes; e não haverá nada de novo nela, mas cada tormento e cada alegria e cada pensamento ou suspiro e cada coisa imensuravelmente pequena ou grande em sua vida, deverá retornar a você - tudo na mesma sucessão e seqüência...’ Como não atirar-se ao chão, rangendo os dentes e amaldiçoando o demônio que assim lhe falou? Ou você alguma vez já experimentou aquele formidável momento em que teria respondido a ele: ‘És um deus, e jamais havia escutado algo mais divino.’... Como teria você se tornado tão bem disposto perante você mesmo e a vida para chegar a não desejar coisa alguma mais ardentemente que este supremo desígnio e esta confirmação eterna?”. A depender do ensinamento nietzscheano, ele que não mais desejava ardentemente aquela situação, ainda não se tornara um “super-homem”, um sobre humano, pois a mais remota possibilidade desse acontecimento se tornar realidade lhe deixava em pavor insuportável, ficando claro que ainda estava amarrado à mentalidade de escravo.

Não era um ímpio, e restava a esperança que lhe fosse oferecido, em despedida, como nos velhos rituais africanos, presentes diversos, levados por aqueles que lhe goste, para que ao reencontrar seus antepassados, possa demonstrar pelas oferendas recebidas o quanto era amado em sua vida terrena. Seu desejo era que na cerimônia não faltasse dança, música, comida, bebidas e visitantes. Somente isso. Aquele ser sincrético estava a definhar claramente, e os sinais dessa decomposição espiritual eram latentes; ele que vivera dionisiacamente, já esboçava vestígios narcisista, falando de sua morte na terceira pessoa.

Então, amigos, por misericórdia, ofereçam-lhe-me o instrumento da partida.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

MEU AMOR FLAMEJANTE


Confesso que não sei bem de onde vem essa atração. Tentei até, inicialmente, atribuir essa paixão ao velho simbolismo do encarnado, predominante nas bandeiras que carreguei por longo tempo quando de minha militância comunista, ao que fui enveredado pelas mãos do poeta e camarada Dadá, negro complexo que carrega consigo a antítese dele mesmo na vida, na arte e na paixão. Mas não era. Percebi logo, bastou rememorar meus velhos discursos, posicionamentos, ações e gestos, hoje, lapidados pela força de um bisturi que não costuma ter compaixão de ninguém: a vida. Aquela beleza me cativa, atrai e extasia por motivo bem mais forte.

Mesmo tendo vivido, visitado e passeado nos mais diversos lugares, foi aqui, nesta Zona da Mata, que despertei para esse sentimento. Não posso também ser ingrato a ponto de dizer que fui movido ou estimulado pelas belezas naturais apenas nesta região. Beleza, afinal de contas, as vejo desde o parto, nas margens do Rio Madeira, na pequena vivência da Baixa da União e naquele que terminou por me chancelar em pseudônimo, o inesquecível bairro do Areal.

Fui atrás. Precisava saber como tinha chegado a esse ponto de admiração, atração, encantamento e até mesmo de louvor. Posso estar enganado mais uma vez, como aconteceu da primeira, quando me precipitei em chegar a uma conclusão... Sei não, acredito ter encontrado o nexo causal para tamanha atração. É bem verdade, também, que sua cor influenciou substancialmente para que isso acontecesse, lembra uma pedra preciosa de idêntica beleza: o rubi.

Eis que começa mais uma vez a temporada de florada da minha paixão. Ela vem com as primeiras águas das chuvas, ainda rompendo o calor causticante e tórrido do forte verão amazônico, que judia da terra há tempo. Brota como a agradecer a Deus pelos primeiros banhos, mostrando acanhado, porém exuberante, que Ele existe – senão como tamanha beleza? Está começando a florada dos Flamboyants. Fico bobo, “abestado”, “alezado”, completamente transformado frente a sua beleza. Na mutação dos galhos secos, começando aos poucos a receber uma folhagem esverdeada, como a anunciar a beleza vindoura. Ela surge meio acanhada, com pequenos botões vermelhos... Que de repente, não mais que de repente, toma de flores por completo toda a copa. Não há como resistir a sua beleza. É esplendoroso!

O Flamboyant é nativo de Madagascar, e adapta-se com maior facilidade em clima quente, o que lhe proporciona precoce e abundante floração. O nome pomposo vem do francês, traduzindo-se “flamejante”. Ah!... Antes que esqueça, quanto ao nexo argumentado, acredito sejam vários, além daquele que pensei ser único. Vermelho é meu sangue, é a cor da paixão, está no meu combalido Flamengo, no fogo, no Garantido, nos Diplomatas do Samba e, como não poderia deixar de ser, é usado por Xangô, que me guia. Se dele tenho alguma coisa a ver, deixo a resposta para o “poetinha”, que faria 96 anos no próximo 19 de outubro:

Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de Rei
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só o amor em mim
Tudo é só o amor para mim
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô
Salve, Xangô, meu Rei Senhor
Salve, meu Orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para gente amar
Mas amar é sofrer
Mas amar é morrer de dor
Xangô meu Senhor, saravá!
Me faça sofrer
Ah, me faça morrer
Ah, me faça morrer de amar
Xangô, meu Senhor, saravá
Xangô Agodô

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

RECONSIDERAÇÕES DE UM “DÉJÀ VU”

Não pretendo me referir aqui ao filme “Déjà vu”, dirigido por Tony Scott, com Denzel Washington, Val Kilmer, James Caviezel e Bruce Greenwood no elenco. Falo do vivido por mim... ou vivendo. Daquele em que vi um sofrer no dia-a-dia por carregar consigo o peso da sensitividade, que lhe rasgava o peito a sangue frio na vã tentativa de todos proteger, como se isso lhe pudesse ser possível. O outro, por sua vez, carregando outra qualidade para a dor: a sensibilidade. Este, como filho de Xangô que é, faz uso das letras o bálsamo para sua alma, quando atormentada vaga noite a fora, desprendendo-se de sua matéria-corpo, fluindo poesia e composições cortantes, que lhe insistem em retalhar a própria carne. Diferenças? Este carrega a delicadeza dos sentimentos, enquanto aquele, coitado, rude, era perturbado constantemente com o antes da chegada dos sentimentos, ele pré-sentia, sempre recebendo a anunciação da dor de seus irmãos de sangue, de copo e farra.

Aquele, na amarga constatação da incapacidade frente ao inevitável, acompanhava-se de Baco desde cedinho, ainda antes do labor, em um pequeno prédio que tinha à sua frente, na esquina, um lindo pé de flamboyant, cuidadosamente plantado por José Oceano Alves e registrado em sua obra poética. Obra essa, inclusive, resgatada em um pequeno sebo de Porto Velho por este, o outro, sonhador, também apreciador de seguidos goles, porém sem a mesma desenvoltura.

Carregam nas semelhanças, além da dor, o biótipo, que já fez o mais veterano dos botequeiros porto-velhenses, o Zizi, onde aquele se servia da pinga matinal, se confundir como se este fosse, quando este, por sua vez, também se deliciava com uma dose do aperitivo preferido de Exu, ao qual, em sua oferta, originou-se a “branquinha” destilada. Divergiam na acumulação de conhecimentos, sem que precisamente em quantidade, pois enquanto aquele trazia consigo a sabedoria da vida, este, apesar de ainda acreditar que os têm, carrega mesmo aquele advindo das academias, talvez daí o maior de todos os problemas. O dito homem comum aprendeu a ouvir a todos indistintamente, analisar e às vezes até mesmo agradecer por mais um aprendizado. Já o conhecimento acadêmico, costuma ser arrogante, pretensioso, desmedido e costuma sempre querer explicação sobre tudo, como se tudo fosse possível explicar. Se por vezes silencia, ainda assim reveste-se do silêncio para rejeição do argumentado.

Ambos, talvez, ainda nas semelhanças, nutrissem amor pela companhia da morte. Esqueceram que ela é certa, inevitável e óbvia. A vida, por sua vez, é de fato o verdadeiro milagre Divino e um desafio desde o processo de sua geração, pois por ela temos que lutar, cuidar, zelar e, de preferência, saber respeitá-la.

Aquele que carregava a beleza do conhecimento adquirido pela vida, quando certa vez definhava abandonado, desolado, em estado de degradação humana, teve a humildade de receber a ajuda de seus velhos pais, também pessoas comuns, que lhe estenderam as mãos para retirá-lo da difícil situação em que vivia. A humildade foi o laço essencial entre a oferta e o aceite do carinho e da atenção patri-maternal, pelo resgate à dignidade.

Já fui tomado pelo temor, outrora, quando da sensação de um “déjà vu”, pois agora, com os velhos e com aquele, já se foram a humildade, o conhecimento comum, a simplicidade... Mas, para minha felicidade, vejo que da proa, este - negro beiradeiro, retomou o remo, conduzindo a vida com maior serenidade e sabedoria... mesmo que em águas salgadas, bem distante de nosso Rio Madeira. Que Oxalá o proteja!

sábado, 1 de setembro de 2007

O AMOR CALLAS!

Filha de imigrantes gregos, ela nasceu Maria Cecília Sophia Anna Kalogeropoulos, em 2 de dezembro de 1923, na cidade de Nova York. Fez um anagrama com o nome do maior templo da ópera, o teatro Scala, de Milão, e então criou seu sobrenome, passando a chamar-se artisticamente Maria Callas. Mas segundo sua mãe, Evagelia, que desejava um filho homem, a grande tempestade que caia quando de seu nascimento, influenciou em seu temperamento, pois era uma pessoa indomável, geniosa, intempestiva e regida pelos sentimentos. Cresceu tímida e insegura, gorda e se sentindo feia, ao lado de sua irmã, Jackie, que achava linda, era loura e mimada por todos. Sua mãe, entretanto, incentivou exacerbadamente seu talento, mesmo sobrepondo-se às objeções do marido, que entendia que Evangelia estava exigindo demais da menina.

O amor de Callas pela música surgiu cedo, pois aos oito anos já interpretava melodias ao piano e aos 10 cantava árias de “Carmem”, uma canção chamada “The Earth is Free” e “La Paloma”. Mas era pelo canto que Maria escapava da realidade, refugiando-se num mundo de sonho e perfeição, onde sentia-se amada e festejada por todos e, bela, triunfava.

“Uma voz cortante, poderosa, capaz de levar o ouvinte a abismos de paixão ou de dor lancinante. Maria Callas é a emoção superlativa. Uma diva única, quase força da natureza. Quem viu seus olhos expressivos, a visceral interpretação de suas violetas, rosinas, turandots, lucias e normas jamais voltará a se conformar somente com uma bela voz de soprano. Em sua pele, nenhum personagem de ópera era ficcional. O sangue fervia, a dramaticidade explodia, puro êxtase. Butterfly era um lamento nunca ouvido, Magdalena a voz da emoção, e Violeta morria de olhos abertos, encarando uma platéia atônita e chocada.”, fala-se de Maria.

Essa mulher encantadora, que arrasou milhares de corações em sua época, como ainda o faz – sinto isso, conquistou o encanto de Pasolini, Zeffirelli e Visconti. No ápice da fama, o milionário Onassis enchia-lhe de presentes luxuosos e mimos, investindo alto para seduzi-la. O assédio do armador grego, casado à época com Tina, foi tamanho que conseguiu enfim conquistar “La Divina Callas. Maria envolveu-se por inteira nessa relação, mesmo sendo altamente atormentada e se submetendo, em algumas ocasiões, dada a exacerbada exploração da imprensa, a humilhações como o desprezo de Christina, a filha de Onassis, ou ainda em um tribunal americano, onde depôs sobre sua participação na separação do casal Onassis.

Com uma vida de sucesso e uma das maiores cantoras líricas de todos os tempos, Maria Callas realiza uma série de recitais, incluindo um no Japão, que repercute negativamente em sua carreira e acaba se tornando o estopim para que ela se refugiasse em Paris, evitando novas aparições públicas. Teria ela percebido que sua voz não era mais a mesma e poupou-se de novas apresentações, vivendo praticamente reclusa. Mais não era só isso, pois o amor por Onassis ainda lhe atormentava.

É a partir desse período que o cineasta italiano Franco Zeffirelli, um apaixonado pela música lírica, resolveu dirigir seu recente filme “Callas Forever”, sobre a linda Maria que era sua amiga pessoal e que ele já havia dirigido em 1964, numa encenação no Covent Garden, em Londres. Baseado nas conversas que tiveram, Zeffirelli recriou de forma ficcional os últimos dias de vida da cantora. Magistralmente o diretor de Romeu e Juieta não apela, em momento algum, para as famosas apelações hollywoodianas em busca de bilheteria. Deixa transparecer que mais queria fazer uma homenagem, uma obra deliciosa aos olhos e ao coração, fascinando a todos e, pior, aumentando o elenco dos apaixonados por Callas.

Mesmo os críticos insaciáveis que adoram depreciar diminuir as qualidades de Zeffirelli, sucumbem frente à obra: “Os figurinos são belíssimos, a escolha do elenco acertada e os números musicais muito bem produzidos e executados. E, o melhor de tudo, sempre ouvimos a voz da própria Callas eternizada em gravações importantes”.

Jeremy Irons é Larry Kelly, um produtor de rock quarentão que, no passado, produziu recitais de Maria Callas e numa turnê de uma banda de rock por Paris, decide procurar a amiga para propor-lhe a volta aos palcos com a encenação de Carmen, de Bizet. Callas, interpretada por Fanny Ardant - toujours belle - resiste, mas acaba convencida quando o produtor lhe explica seu plano. O trabalho dublaria a voz de Callas utilizando as gravações mais perfeitas e, com uma boa sincronia, o público não perceberia o truque. A volta aos palcos acontece em grande estilo, mas o engodo atormenta a cantora e ameaça frustrar a continuidade do projeto. Temperamental, Callas ameaça novamente se esconder.

É emocionante como “Callas Forever” consegue passar a mulher que fazia de seu canto a expressão máxima de todos os sentimentos humanos, paradoxalmente é desprezada pelo único homem que amou. A mulher que viria a morrer vítima de um infarto, em seu apartamento em Paris, em setembro de 1977, teve que ouvir e sofrer com a comparação feita pelo armador grego Aristóteles Onassis, quando comparava sua poderosa voz, já declinando, a “um apito que você traz na garganta”.

Na rua Georges Bizet, quanto passava o enterro de Maria, centenas de parisienses que choravam saudavam a passagem do esquife, faziam a saudação que lhe emocionava na saída dos teatros: “Brava Callas!, Brava Maria!”. Na primavera de 1979, suas cinzas foram lançadas no Mar Egeu.

Zefirrelli parece disposto a não deixar nosso amor por Callas morrer.

domingo, 26 de agosto de 2007

DO MEU LADO HUMANO, DEMASIADAMENTE HUMANO


“Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte, dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me às asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filho de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!”

- Não, ainda não foi desta vez que compartilhei desse lindo soneto de Florbela Espanca. Não, ainda não foi desta vez que me deixei seduzir por inteiro, por essa que a muito assusta e a outros, acreditem, encanta.

Era uma noite de sexta-feira, quase 19h, agosto, 24, quando o dia então entrava no descanso e a lua, quarto crescente, começava seu domínio sobre a noite. Uma curva, uma surpresa e o quase abraço daquele ser esguio, coberto por um manto preto e de posse de uma ferramenta utilizada na agricultura – a foice. Um provérbio africano nos ensina que “a esteira da morte está estendida em frente de todos os humanos”. Eu o sou, mas não foi desta vez que me deitei sobre ela. O medo que se abateu sobre mim naquele momento tinha um motivo forte: a Beth, mulher que amo, estava a meu lado. Essa sim, me preocupa a perda...

Mas, como dizia Schopenhauer, quem não tem medo da vida também não tem medo da morte. E a vida é coisa que muito me fascina – não obstante alguns que acreditem diferente. Assim não fosse, não passaria por tudo que passei nos últimos dois anos de minha vida, ainda acreditando naquilo que o filósofo alemão falou, quando diz que em geral, nove décimos da nossa felicidade baseiam-se exclusivamente na saúde. Com ela, tudo se transforma em fonte de prazer. Compreensível aquele pensamento, deve-se a Sócrates, pois com ele, o homem, na medida em que abandonou o fenômeno do trágico, verdadeira natureza da realidade, segundo Nietzsche, perdeu a sabedoria instintiva da arte trágica, restando apenas um aspecto da vida do espírito, o aspecto lógico-racional; faltou-lhe a visão mística, possuído que foi pelo instinto irrefreado de tudo transformar em pensamento abstrato, lógico, racional.

O certo é que aqui estamos meus amigos, Beth e eu, muito bem vivos, graças a Deus... E ainda na busca, diariamente, de viver a vida intensamente! Finalizo compartilhando o pensamento de Arthur Schopenhauer, que dizia que geralmente "preocupamo-nos com planos e preocupações para o futuro ou também com a saudade do passado, ocupam-nos de modo tão contínuo e duradouro, que o presente quase sempre perde a sua importância e é negligenciado; no entanto, somente o presente é seguro, enquanto o futuro e mesmo o passado quase sempre são diferentes daquilo que pensamos. Sendo assim, iludimo-nos uma vida inteira. O presente constitui o cenário da nossa felicidade, mesmo se a qualquer momento se vier a transformar-se em passado e, então, tornar-se tão indiferente como se nunca tivesse existido. Onde fica, portanto, o espaço para a nossa felicidade?"

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

SAUDADES DO MERCADO CENTRAL, por João Vianney *

Das minhas idas e vindas ao mercado central (trabalhava de domingo a domingo), lembro com saudades do Box Nº. 01 que pertencia ao meu pai Severino Semeão, caboclo nordestino nascido em Gravatá de Bezerros em Pernambuco, que chegou nesta cidade maravilhosa em meados de l960, trazendo consigo a literatura de cordel para Porto Velho, convidado pelo tio Ribeiro que era dono do Calçados Verlon localizado na Rua do Coqueiro.
Voltando ao Mercado Central, lembro-me de quase todos os feirantes os quais eram uma grande família. Como não lembrar o João do Boi com sua banca de tabaco e fumo de corda, da D. Maria oceano com sua farmácia, do seu José Félix (pai do Micharias) com sua lanchonete, onde eu lanchava um copo de refresco de maracujá com uma saltenha, do Jesuano com sua banca de vinil (LPS), onde eu gravei minhas primeiras fitas cassetes para ouvir no meu toca-fitas Panasonic (presente da minha irmã Luiza) onde nós (Ataíde, Dadá, Francisco (Pedro Bó) Jorge (Cabeça de onça) ainda criança perturbando a gente, ouvimos pela primeira vez o som de Raul Seixas, Secos e Molhados, Gilberto Gil e outros.
Lembro da banca da D. Marta que vendia Açaí e aquela maravilhosa salada de frutas, lembro também do Box do Dinho (irmão do Carlinhos Camurça) do Mica (irmão do Cota) do Sr. Zé da Risada, do Bolívia com seu pão sempre quentinho, do Julinho(ex jogador do Botafogo do Camacho) com seus croquetes, do Mano Bento e sua Banca, a mais arrumada do mercado, do ´Zé Ribeiro (irmão da Tia Francimar), do Raimundo Ribeiro, do Sr. Osmar Santos (Pandorra), do Sr. Luiz Gomes, do Macaco sempre correndo atrás dos saqueiros que viviam lhe perturbando, da Bico de Brasa com seu baton vermelho e de um ébrio que não lembro o seu nome que vivia imitando um sax, do Antonio e Zeca Gordo com suas bancas de carne, a banca de jornais do Sr. Barroso onde eu comprava pela manhã os jornais (A Tribuna, o Alto Madeira, o Guaporé e quando tinha, o Combatente), do Sr. Joaquim peixeiro, do Sr. Raimundo (genro do Manoel Miranda dos vinis). Lembro também daqueles que traziam mercadorias de São Paulo para atender os feirante, Sr. Vilaça (pai do Zé e do Jorge) Lopes (sandálias cachoeira), do Sr. Pedro Malaquias.
Agradeço ao Dadá que me incentivou a descrever nossas lembranças de Porto Velho, ao Valdir que nos cedeu espaço no seu site, ao Menezes que me fez lembrar várias pessoas da nossa terra. Valeu, vai ter mais, agora me empolguei, e a culpa é de vocês.

* Tomei a liberdade de extrair este texto do sítio do prof. Valdir Pereira (www.josevaldir.com), intelectual amante das artes, por três relevantes motivos: O "Cabeça de Onça" nele citado, é o "Negro Boto" que vos escreve; nem o autor do texto, nem seu hospedeiro, o emérito prof. Valdir, criariam qualquer obstáculo para eu reproduzí-lo e, por final, esse João Vianney "Camarão" Prado Melo, conseguiu nos emocionar com essas lembranças. Muito obrigado a esse irmão branco da família Batista Santos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

DAS DELICIOSAS LÁGRIMAS

Oxalá a lenda turca sobre a origem do alho e da cebola esteja equivocada. Contam, que após a expulsão de Satanás do Paraíso, este conseguiu cair equilibrado na terra. No local onde desceu seu pé esquerdo, nasceu o alho, e no local do pé direito, teria nascido a cebola. A lenda talvez tenha origem no fato de a cebola, especialmente, ostentar em seu bulbo uma essência volátil e lacrimogênea, fortemente sulfurosa e cianídrica.
A cebola, assim como o alho, a echalota e o poró, segundo o taxonomista sueco Carolus Linnaeus (1707-1778), fazem parte da família botânica das Liliáceas e do gênero Allium, desse ramo, surgem 950 espécies diferentes. Da mesma família, o poró, a cebolinha-verde e a cebolinha-de-inverno, recebem mais de uma definição, problema causado pelo fato do gênero Allium, ser desconhecido em estado selvagem. A falta desse conhecimento científico nos deixa preocupados, principalmente quando lembramos da lenda turca.
Há cerca de 10 a 12 mil anos, o homem já aprendera a cultivar essas plantas. A complexidade das transformações por que passaram seus antecedentes, fizeram com que complicassem, também, na determinação histórica do nome comum do produto. O fio da meada, provavelmente, tenha início no grego arcaico kepe, que significa ardência, e aos poucos, foi-se transformando em kepaia, que no latim virou caepa e no gaulês se tornou cepa e cive, civet, ciboulette. Nos dialetos românicos chamava-se unio, por possuir uma única membrana embrionária ao redor da sua semente individual. Depois das modificações do francês, perdeu-se na obscuridade o termo airgum, que no período medieval se utilizava para caracterizar o alho, a cebola, a echalota, a raiz-forte e até o agrião.
Os primeiros a chorar com o corte da cebola, provavelmente foram os mesopotâmicos, os assírios e os caldeus, que as transportaram para o Egito. Em torno de 2.400 a.C., segundo uma inscrição cuneiforme sumeriana, a linguagem mais primitiva que se conhece, autoridades da Babilônia foram punidas por roubarem a iguaria, acompanhada de pepino, deixados como oferendas em um templo. O próprio Código de Hamurabi, que é um dos mais antigos conjuntos de leis já encontrados, elaborado por volta de 1.700 a.C., já estipulava que os miseráveis receberiam do governo, como donativo, uma ração mensal de pão e cebola, que também era alimento básico dos escravos que ergueram as pirâmides de Quéops, Quéfrem e Miquerinos.
Não foi privilégio dos antigos romanos a atenção com a cebola, com a qual costumavam rodear os corpos mumificados, particularmente entre o tórax e os braços, sobre os olhos e junto às orelhas. Na França, ainda hoje, numa seita religiosa de aproximadamente 4 mil fiéis (fanáticos), cada um deles come meia dúzia de cebolas cruas por dia, crentes que estão assegurando vida eterna.
Bem, não se sabe ao certo a forma, nem a época, mas a cebola chegou a Roma. Horácio, o poeta, no último século antes de Cristo, já glorificou a cebola como componente principal de sua “dieta econômica”. Marcus Gavius Apicius, na mesma época, em seu pioneiríssimo compêndio gastronômico, já mencionava a cebola em suas receitas de marinadas, molhos ou companhia para pratos de carne e peixe. O filósofo Lucius Yunius Moderatus Columella, no primeiro livro sobre agricultura, jamais publicado, por volta dos anos 50, manifestou sua paixão ardente pela cebola de Pompéia, nos arredores de Nápolis.
A história é longa. Os arquitetos eslavos, por exemplo, basearam-se nos desenhos bulbosos da cebola para enfeitarem as cúpulas e as torres das igrejas. Do apogeu do czarismo à implosão do leste europeu, lá estão elas, as cúpulas das igrejas russas demonstrando o fruto de suas inspirações.
As simpatias anti-lágrimas são muitas, indo desde o colocar de um palito de fósforo na boca, entre os dentes, ao processo de descascar e fatiar as cebolas debaixo d’água. O certo é que ela continua conosco, cruzando mares, entrando em novas civilizações e gerações, sempre nos proporcionando um paladar delicioso, sem comentar os efeitos positivos na saúde de quem as consome.
Na variedade gastronômica internacional, independente da nacionalidade, sempre, sempre mesmo que a cebola integrar algum prato, depois de um cuidadoso refogado, inevitavelmente ele ficará “gostoso prá diabo”!

quinta-feira, 26 de julho de 2007

QUEM SERÁ AGORA?

Quem haverá de me acorda para encher os caburões d’água, carregando em baldes feitos de latas de tinta, da casa do Osmar Cuscuzeiro ou da cacimba do “seu” Teixeira?
Quem haverá de me mandar buscar os pães caseiros para os cafés da manhã e da tarde, no Joaquim Procópio?
Quem haverá de me mandar ao Tales Benevides, para buscar o arroz do almoço? Percurso todo feito se repetindo o nome do que se fora buscar, para evitar o esquecimento.
Quem haverá de me vigiar para chegar em casa antes do papai chegar do Mercado Modelo, tomando cuidado para não estar “cinzentos” depois dos banhos nos igarapés da Ponte ou da Dona Malha, e aquela correria prá não ser “salgado” na saída. Longos banhos aqueles, com disputas de mergulho, brincadeira da pira e jogadas de cangapés.
Quem será que descascará meus tucumãs e pupunhas para eu comer com café?
Quem será que guardará aquele tutano maravilhoso, na hora do almoço, para eu misturar com farinha e me deliciar antes de degustar aquela caldeirada deliciosa?
Quem será que desembaraçará os punhos de minha rede, na hora do meu descanso, para que eu possa balançar-me com maior segurança e amenizar o calor causticante de Porto Velho? E esse punhos, quando quebrarem, quem será que os consertará, tecendo um a um?
Quem será que fará, nos pequenos longos períodos de frio, meu agasalho de flanela para me aquecer? E nas noites de febre, ou mesmo naquelas em que fingia, que esmigalhará os comprimidos de melhoral infantil, misturando com açúcar na água?
Quem será que fará a farofa de ovo para eu comer com banana prata ou café; quem fará os chibés, as tortas de sardinha para amenizar minha fome?
Quem será que guardará as correias das velhas sandálias havaianas e as consertará, quando preciso, mesmo usando grampos de cabelo quando aquele pino quebrar?
Quem será que passará o pente fino em minha cabeça, mesmo sob meus protestos, para tirar os piolhos e catar as lêndias?
Quem me chamará para casa, cedo da noite, para eu não ficar até tarde brincando da “pira”, de “rouba bandeira” ou “trinta e um alerta”?
Quem será que fiscalizará se “seu” Gustavo cortou o meu cabelo corretamente?
Quem será que fará meus calções de chitão colorido, folgados e confortáveis, onde eu possa enrolar no elástico da cintura, as petecas que ganhar brincando de “paredão” ou “teco-palmo”?
Quem velará pela minha formação espiritual, me levando mesmo com sono, para assistir as missas na igreja do Padre Mário – Homem Santo? Ou quando com febre, me levará para Dona Cotinha – Mulher Santa - rezar sobre minha cabeça com folhas de vassourinha?
Quem cuidará de minha formação de cidadão, me levando para as sessões da Câmara Municipal, onde os vereadores Leite e Paulo Struthos Filho me deixavam encantados com seus pronunciamentos fervorosos?
Quem será que me acolherá no colo, quando minha alma se rasgar – frágil que é como aqueles calções de chitão - e saberá com palavras e carinho, cerzi-la, restaurando-a e me preparando para outras guerras?
Quem será agora que fará tudo isso por mim?
... - Haverão de ser meus pais, Cecy e Zeferino, quando Deus, do alto de sua magnitude e benevolência, resolver me levar ao encontro deles, que tenho certeza, já se encontram em Sua companhia.